quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 CACARECO: A FÊMEA DE RINOCERONTE QUE FOI ELEITA VEREADORA!



          Imagine uma candidata elegante: desfilando seus 230 quilos muito bem distribuídos, a fêmea de Rinoceronte emprestada ao Zoológico de São Paulo, ganhou de lavada, com mais de 100 mil votos, a eleição para a Câmara Municipal em 4 de outubro de 1959. Este ano, ela comemoraria seus 67 anos de escolha popular! Mas só poderemos fazer-lhe uma homenagem póstuma, pois desde 1984 seu esqueleto está em exibição no Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. A Cacareco, devolvida ao Zoológico do Rio, morreu em dezembro de 1962, de nefrite aguda. Foi trazida para São Paulo em 1984 e está em exposição, recebendo a glória que merece, no museu da USP.

Você deve estar lendo isso e perguntando: é gozação? NÃO! É parte da história política brasileira, em especial a paulistana. Cansados e insatisfeitos com os políticos da época, os paulistanos abraçaram fortemente a ideia do jornalista Itaboraí Martins, do Estadão, que numa ironia sem precedentes, lançou a candidatura da Cacareco. A adesão foi imediata e maciça. E ela teve uma campanha política à altura! Santinhos foram impressos e distribuídos e até um jingle foi feito e lançado nas rádios. Dizia ele: “Cansados de tanto sofrer / E de levar peteleco / Vamos agora responder / Votando na Cacareco".

        E não deu outra! A rinoceronte foi a mais votada vereadora da cidade, com mais de 100 mil votos! Observe-se que o segundo colocado teve menos de 94.000 votos...O povo, definitivamente, havia escolhido Cacareco!

        Mas aí vem o X da questão: a lei nada dizia contra animais se candidatarem. Não havia proibição explícita. Portanto, sua eleição era legítima! Mas como empossar uma rinoceronte? Magistrados e juristas lançaram-se com afinco à procura de um preceito legal que impedisse a posse...E após muita pesquisa, encontraram o pelo em ovo que anulava os votos dados à  Cacareco, no Código Eleitoral da época. Ele exigia que o candidato fosse um cidadão brasileiro, com direitos políticos(leia-se título de eleitor, coisa que Cacareco não tinha), alfabetizado (ela não era...) e registrado em um partido político( também não preenchia essa exigência), requisitos que um animal obviamente não preenchia. Assim, num tempo em que as cédulas eram de papel, os mais de cem mil votos foram anulados. E Cacareco voltou a ser novamente mais  uma simples atração do zoológico...Os votos, além de anulados, não foram computados oficialmente, o que é respaldado por nossa legislação até hoje. Muita gente pensa erroneamente. que se 50% dos eleitores anularem seus votos, a eleição estará anulada e deverá haver outro certame. Ledo engano! Se assim fosse, o pleito de 1959 deveria ter sido refeito. E aí, nossos políticos, que já naquele tempo eram escrachados pelos eleitores que preferiam um bicho da espécie Rhinoceros unicornis, a um Homo sapiens, talvez incluíssem na legislação a possibilidade de animais se candidatarem. Afinal, eles são mais fiéis. No caso da Cacareco, ajudou até na Economia, pois um brinquedo com  sua anatomia virou febre e toda a criançada queria um! Às vezes é melhor prestar atenção aos animais. Além de úteis, sabem exatamente seu lugar nesse mundão de Deus. E ponto final.


Texto de Maria Luísa Duarte Simões Credidio., jornalista reg. 1328/79

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